O Fogo e o Aço

O Fogo e o Aço

“Uma cozinheira derrubou um prato de mignon, alguém passou com um esfregão limpando. Eu não via os rostos das pessoas, apenas dançava naquele chão liso e engordurado, numa coreografia delicada, equilibrando aço em minhas mãos e usando fogo para transformar a natureza. Cozinhar realmente mexe com o ego.”
(O Sexto Estágio)

Um dos meus maiores desafios – e talvez desejos – com esse post é transcrever em palavras a minha paixão pela cozinha. É uma sinestesia. É uma forma um pouco doida de como meu cérebro liga as memórias, sentidos e sentimentos deixando tudo com cor, com textura, com aroma e sabor. Minha paixão pela cozinha não é vontade de comer, não está diretamente ligada com a fome e por isso está presente em minha vida o tempo todo. Ela é como uma curiosidade. Cozinhar é uma maneira de criar respostas para minhas próprias perguntas usando apenas uma mistura imperfeita de comida e carinho.

E para começar eu escolhi fazer uma pequena viagem pelas diversas cozinhas da minha infância. Passei pela cozinha de casa, onde tudo começou, onde acompanhava meu pai e minha mãe, sempre curioso. Visitei a cozinha de minha avó materna durante a preparação dos cafés da tarde e dos almoços de domingo que reuniam a família toda. E depois de passar por algumas cozinhas mais breves daqueles tempos em que o balcão e a pia ainda eram altos para mim, cheguei nas poucas e breves cozinhas das casas de praia, as minhas raras pied-à-terre dessa vida.

O termo francês pied-à-terre significa literalmente “pés no chão”, mas quer dizer algo um pouco diferente. Pied-à-terre é a expressão usada para caracterizar as pequenas residências sazonais, como casas de veraneio ou em regiões afastadas das grandes cidades, onde você pode ir para descansar, para ficar de pés no chão. Tive muito pouco disso em minha vida, minha família não costumava viajar muito. Mas lembro com muito carinho dessas poucas oportunidade que tivemos.

Nossas viagens sempre foram para o litoral paranaense, onde vinte anos atrás não havia muita coisa. Os verões por lá eram divididos entre praia, piscina, bicicleta e cozinha. Atualmente, porém, as memórias ligadas com cozinha são as mais fortes e presentes aqui. Ainda lembro de sabores e cheiros de coisas que nunca mais comi. Na época não sabia mensurar como esses sentidos eram impactantes para mim e como essas memórias me acompanhariam por toda a vida. Eu era muito novo e, apesar de muito curioso também, sentia que tudo aquilo era apenas “normal”…

Hoje sei que não era. Meu pai sempre foi apaixonado por comida, por cozinhar e por comer. Foi com ele que aprendi que tudo tem um ponto, que tudo tem um tempo. Ele era aficcionado por receitas e seguia tudo à risca. Minha mãe sempre foi professora, sempre teve paciência para responder minhas perguntas, além de didática para ensinar como eu poderia ajudá-la em qualquer tipo de preparo. Além disso, a pied-à-terre deles era juntar os filhos numa mesa com muito peixe, frutos do mar, pratos especiais e temperos que fugiam do cotidiano. Não havia apenas uma comida diferente na minha casa, cheia de carinho e inspiração, havia também cultura. Aprendi muito comendo, pois não era apenas comida, não era unidade, era plural, conjunto. Era a união de diferentes ingredientes, com diferentes texturas e sabores me fazendo entender que tudo aquilo sofria uma transformação, que cozinhar era um processo.

Até hoje, cada vez que entro na minha cozinha, acompanhado ou sozinho, ainda me sinto um pouco o garoto de pés no chão, curioso e tentando imitar meus pais, falando de comida, exercitando a criatividade através do paladar e tentando tomar cuidado com a faca em minhas mãos.

Outra memória gostosa dessa época – tão marcante quanto – era minha vontade de ter um restaurante. Depois de tantos anos exercitando apenas a curiosidade e a criatividade, quase nunca repetindo (e nunca seguindo) receitas, foi com o Tienda que desenvolvi meu primeiro cardápio. Foi nele que investi mais de dois anos da minha vida e pude viver intensamente essa experiência. O Sexto Estágio aborda altos e baixos dos meus anos de cozinha, quando aço e fogo transformaram minha vida.

Fotos do Tienda, meu restaurante de 2009 a 2012.
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HOMERO MEYER

Autor de textos inacabados, pensamentos acelerados e discursos exagerados que tendem a existir entre a realidade e a mais profunda utopia.

Tudo nessa frase representa Homero Meyer, porém, depois de colocar o ponto-final em seu primeiro romance e lançá-lo ao mundo, ele aprendeu o valor de concluir e dividir seus pensamentos. Trocar experiências através de palavras, como forma de construir novas emoções, fez com que o antigo hobby solitário se tornasse o seu maior objetivo de vida.

HOMERO MEYER

Autor de textos inacabados, pensamentos acelerados e discursos exagerados que tendem a existir entre a realidade e a mais profunda utopia.

Tudo nessa frase representa Homero Meyer, porém, depois de colocar o ponto-final em seu primeiro romance e lançá-lo ao mundo, ele aprendeu o valor de concluir e dividir seus pensamentos. Trocar experiências através de palavras, como forma de construir novas emoções, fez com que o antigo hobby solitário se tornasse o seu maior objetivo de vida.

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